Confronto

Duas vozes - duas visoes...
Diversidade de opinioes com direito de resposta...

sábado, janeiro 31, 2004

Nomes
Olha-se para um nome. E pensa-se. Nomes há muitos. Mais do que pessoas, na verdade. Mas olhar para um nome nada trará de novo. De que adianta fazê-lo vezes sem conta, afinal? É só um nome, caramba!
Os nomes são as palavras, por ventura mais gastas. Estão na boca, nos lábios de qualquer um. No pensamento também. Não necessariamente no coração, mas num sítio lá próximo, a memória. A memória deve estar mais próxima das aurículas e dos ventrículos que dos hemisférios cerebrais. Mas isso seria tema de uma outra conversa.
Falo agora de nomes. Presentes, passados. Circulam aos montes a cada pensamento e ninguém se apercebe que lá estão apenas letras, palavras, sem sentido, sem significado na ausência do seu proprietário. O mais estranho é a frequência com que cada um surge, talvez aleatória aos nossos ingénuos olhos enquanto o inconsciente Freudiano do nosso psiquismo planeia as mais negras mensagens subliminares... Tenta conduzir-nos à problemática da ausência sem pedir autorização. Quando damos conta, estamos dominados. Por ideias que vêm de arrasto... a nomes. Perdidos depois em “platonices”, em mundos paralelos, perder a noção da realidade é o próximo passo. E cometer erros que já foram cometidos. Já sem lembrança. Pensando apenas que este nome é diferente de outros e outros. Quando na verdade já navegamos desorientados nas malhas por nós próprios tecidas...
Percepcionar tudo isto, requer primeiro reconhecer a importância de um nome, viver e sentir a traição de um nome. Como quando repetimos uma palavra até perder sentido aos nossos ouvidos.
JV

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Era numa vez uma frequência...
E, as vozes boquiabertas questionaram-se: "Durante a frequência?".
Caras pálidas de enferrujada crença, ainda não cabiam em si quando concluiram: "A partir deste momento o Mundo passou a ser um lugar melhor!".
O professor respondeu: "Sim, junto à porta."
"Como é possível?" indagava a minha surpresa reflexão. Olhei para o relógio de pulso e os ponteiros pareciam movimentar-se no sentido anti-horário!
"Mas um de cada vez", alertou. Ainda desacreditando-me, cedeu o tecto por cima de mim quando o professor confirmou concluindo: "Durante a frequência quem quiser desloca-se até à porta e poderá fumar. Mas, um de cada vez!".

DTG

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Desrespeito
De muito mau gosto tem sido a exploração de um assunto tão chocante pelas televisões. Exploração de sentimentos, das lágrimas, da tristeza. Nada do que vi foi na TVI (televisão cujo serviço informativo é consideravelmente deplorável), no entanto a SIC, por quem ainda conservava uma réstia de estima, perdeu mias uma vez o meu respeito ao acrescentar música de fundo e ao criar spots (não sei se publicitários ou com que outra intenção) nestes últimos dias acerca da trágico falecimento de Fehér.
Não será uma morte suficientemente dramática? Será ainda preciso acrescentar floreados desrespeitadores em reportagens ou campanhas inúteis para cumprir o serviço de informar?
JV

terça-feira, janeiro 27, 2004

O espelho (II)
Óculos. Lágrimas. Chamas. Sobrevoando edifícios. Onde ninguém é Alguém...

Acorda. Sonhos perturbadores. Regressa a si. Olhando em redor vê folhas soltas, escritas com letra tremida. À luz da penumbra que vem do céu nublado, vê uma folha branca com um borrão de tinta. Por baixo podia ler as suas palavras ainda gravadas a sangue dentro de si. Erguendo-se despenteado, olha para a estante onde não vê livro nenhum. Na secretária amontoam-se folhas rasgadas e vê que as cinzas junto à lareira deixam marcas no chão. Relembra então o seu Estado, a sua sombra erguida. Vê-se rodeado de ar. E respira. Respira. Respira.
Senta-se. Um forte cheiro a incenso atordoa-lhe os sentidos. Reconfortado por um pequeno cobertor, sente-se feliz. Ouve então música tornando perfeita a harmonia. Ali, Alguém grita Vida dentro de si.

Acorda. Bons sonhos. Óculos partidos no sono. Lágrimas secas agora, voando ainda por cima da Vida, vendo chamas celestiais em seu redor. E recorda então que o Alguém que sonhou não é, afinal, ninguém.
JV

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Ao direito que temos de escrever e ao dever que teríamos de não o fazer...
Saber que bem lá no fundo tudo o que fazemos e tudo o que escrevemos não consegue expressar o que verdadeiramente Somos, deveria ser um objectivo prioritário para a nossa própria compreensão. É na falta dessa consciência que muitas vezes somos acometidos pela imprudência da palavra escrita. As palavras expressam-se naqueles que as dominam, não naqueles que são por elas dominados. Daí advém a dificuldade da transcrição do nosso mundo para o papel. Dois olhos são bem mais reais que duas letras. E com eles temos o poder de transmitir mais num só momento do que em anos de pontos finais, parágrafos e travessões.
Escrever é, agora, a irresponsabilidade de deixar “vazar sentimento” descontroladamente, sem rédeas ou arreios. E tudo o que registado fica é um crime na nossa alma, a vaidade das emoções, o pavonear de alegrias e tristezas, o queixar incessantemente, o reclamar mais e mais quando o nosso direito de o fazer é cada vez mais diminuto.
Escrever é usar do egoísmo que nos é intrínseco, sem qualquer cuidado ou piedade pelos outros, pelo seu Estado, pelo seu Ser. Na escrita, o que revelamos é a mais negra face de nós mesmos, o que de pobre existe no nosso espírito. Mostramos aí toda a nossa estranheza neste mundo... E estranhamente tudo isto explicita-se no plano místico do texto escrito.
Aí não somos nós mesmos. Ou, talvez, sejamos mais nós do que aquilo que podemos pensar...
Não escrevo. Minto, apenas.
JV

domingo, janeiro 25, 2004

?!
Já esquecemos quando não lembramos?
O não lembrar é distinto de esquecer, ou tentamos confortar a nossa mente com esta ideia enganadora?

DTG

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Frases que ficam XI

"Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz." (Mia Couto, in O Último Voo do Flamingo)

DTG

terça-feira, janeiro 20, 2004

Provas irrefutáveis
Para quem não teve a oportunidade de ler o Jornal de Notícias do passado Domingo, dia 18, é com enorme prazer que saliento aqui uma série de frases que iluminarão as vidas dos caros leitores pela inteligência e pelo significado profundo que contêm e que demonstram com clara evidência toda a sabedoria que um simples “homem” é capaz de encerrar em si.

“É claramente um orçamento. Tem imensos números.”
Pois Sr. Bush... Imagino o que dirá de um código de barras...

“Sei que os Seres Humanos e os peixes podem coexistir pacificamente.”
Claro que sim, Sr. Bush. Veja-se o caso de Atlântida...

“Marijuana? Cocaína? Não vou falar do que fiz quando era criança.”
Ora, Sr. Bush, isso explica muita coisa...

“Injustamente, mas com verdade, o nosso partido é acusado de ser contra tudo”
O quê???

“Se foram despedidos, estão 100% desempregados. Preocupo-me com isso.”
Brilhante dedução Sr. Bush.

E para todos os que não estão convencidos da capacidade intelectual do Sr. Bush, recomendo vivamente que releiam cada uma das afirmações calmamente, porque é capaz de vos ter escapado algo. Ou então passem em revista os anos do seu mandato e verão porque razão ele aparece classificado em penúltimo lugar na lista de Q.I. dos presidentes dos E.U.A., sendo que em último está o seu pai (e cá para nós que ninguém nos ouve, deve ter havido algum engano, porque penúltimo até é um bom lugar...).
JV

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Sinceramente... II
Ainda relativamente ao meu post anterior:

O tempo em altura de exames é muito pouco! E, também muito pouco é o tempo para o Confronto :/
Como sem grande estou, também hoje, aproveito para transcrever uma pequena discussão, saudável certamente :) que estou a ter com PedroF do Contrafactos e Argumentos, relativamente ao assunto do post anterior:


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A segunda "questão", relativa ao "psd e pp quererem avançar com propostas para limitações à liberdade de imprensa... deixam pairar a ideia de que se estão a precaver" é, do meu ponto de vista, uma infantil e infeliz dedução!!! (independentemente de concordar ou não com as pretensas ideias...)
11/01/2004 • 03:27:06 • 212.113.164.98

By PedroF | WebSite |

Caro DTG,
"independentemente de concordar ou não com as pretensas ideias", critica-as como sendo uma "infantil e infeliz dedução"?
Especifique, detalhe, por favor, para eu poder responder. Assim não consigo perceber o seu comentário.
A única nota é que não se trata de "dedução" mas de "deixar pairar a ideia", o que é muito diferente.
12/01/2004 • 16:50:14 • 194.65.14.76

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A questão de eu concordar ou não com as possíveis medidas é independente de eu achar "infantil e infeliz" a afirmação de que tais medidas serviriam para que o psd e o pp se precavessem...
Só fiz esse pequeno comentário ("independentemente de...") porque não abordei criticamente as possíveis medidas em questão (nem pretendo fazê-lo), mas simplesmente a, então, "ideia que pairava".
Esta "ideia" tem em vista a finalidade das referidas medidas e não o seu conteúdo.
Logo, a minha opinião sobre este conteúdo é independente da minha opinião sobre a sua ideia.
12/01/2004 • 17:16:56 • 212.113.164.98

By PedroF | WebSite |

Vou tentar clarificar: o PSD, por Assunção Esteves (AE), ao atirar com este assunto para a praça pública, pegou em situações episódicas para propôr uma alteração global - e sem demonstrar a necessidade da acção imediata - no campo das leis da comunicação social (CS). E a pressa do outro partido da coligação em "repensar" a regulamentação da CS agravou a ideia de haver algo previamente combinado entre ambos. Porquê?
Tal como se não quer mexer em certas leis judiciais durante o processo mediático da Casa Pia, o mesmo deveria ocorrer na legislação da CS.
Mas as afirmações de AE (presidente da Comissão Parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias!!!), secundadas por Telmo Correia e a confusão nas expressas por Guilherme Silva e outros, permitia supôr que estavam a ver se a proposta "pegava" em termos de opinião pública. Porquê?
Como a ideia não era do PSD mas expressa a título pessoal - como AE fez depois questão de clarificar na televisão, esquecendo-se que a tinha proferido no Parlamento... -, os partidos da coligação (e os da oposição) puderam expressar as suas ideias sobre este assunto, ficando o ónus da iniciativa apenas em AE.
Perante as demonstrações de desacordo, incluindo do próprio Durão Barroso (por acaso não ouvi nada do ex-jornalista e actual líder do PP), o assunto poderia ser (como foi) retirado da agenda política rapidamente. Excepto nós os dois, mais ninguém fala dele :)
Neste cenário, como não quer que paire a ideia de que aqueles partidos se estavam a aproveitar de um processo mediático em que nem sequer são os mais atingidos para mudarem leis e assim se precaverem perante futuros processos judiciais que possam envolver os seus elementos partidários?
Repare que não estamos na classe da "teoria da conspiração" porque essas alterações acabariam por beneficiar todos os partidos. Estamos é no âmbito de uma proposta mal conduzida politicamente.
P.S.: Para mim, mais importante é a resposta à questão 3). Mas essa ninguém a quer debater, nomeadamente no Parlamento :(
12/01/2004 • 21:42:34 • 194.65.14.76

By DTG | Email | WebSite |

O que me transtornou foi a presunção de que os partidos da coligação se estariam a precaver.
Tendo conhecimento de tudo o que referiu e ainda dos vários apelos à contenção jornalística, anteriores à intervenção de Assunção Esteves, pareceu-me desajustada tal afirmação (que para mim continua a ser uma "dedução" que ficou a pairar :) ).
Não vejo de que forma a justificação vem cobrir a questão inicial, já que não aborda de quê, e porquê se estavam os referidos partidos a precaver.
É em situações como esta que se vê a grandeza (não dimensional) da blogosfera. Se ela não fosse não poderíamos ser os únicos a discutir, então, este tema :)
Em relação à 3.ª questão: -Não me chocaria minimamente ver a comunicação social vinculada ao segredo de justiça. Concordo com essa situação, logo que isso não servisse de peneira para tapar o sol que são as fugas de informação (isto sim, o verdadeiro problema). Acho que esses responsáveis devem ser, obviamente, punidos. Mas como inexistência total dessas fugas é impossível, penso que deve ser considerado a vinculação dos jornalistas ao segredo de justiça.

"

Já agora, Boa Sorte a todos aqueles que têm exames por esta altura :)

DTG

domingo, janeiro 11, 2004

Sinceramente...
Parece que estamos a viver na República das bananas. Em que tudo tem uma segunda intenção... Até pode ser verdade mas acho que deve haver limites.
Infeliz e infantil dedução do ContraFactos e Argumentos:
"
O PSD e o PP querem avançar rapidamente com propostas para maiores limitações à liberdade de imprensa, quando os acusados "políticos" no processo Casa Pia são maioritariamente socialistas. Os partidos do Governo deixam pairar a ideia de que se estão a precaver - o que é péssimo para a democracia.
"
Isto é que é péssimo para a democracia!!! Se os problemas estivessem do lado dos partidos de governo iriam acusá-los de estar a tentar salvar a pele... Como não, há que arranjar outra teoria da conspiração!
DTG

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Momento de estranha insensatez
Porque à essência do ser humano se opãe uma “anti-essência” que não é mais que uma força, uma pulsão tão ou mais forte que a outra, eis que o espírito sombrio corrompe as veias de quem outrora se deixara levar por visões de Paraíso. E a tristeza dá lugar à raiva. As mágoas a rancor. Numa mistura amarga marcada por um sabor a podre, onde as dores deixam de ser lamentações e passam a regozijo, a um sádico regozijo de si em si mesmo, onde um ambiente lúgubre e fechado descreve concisamente todo o espaço onde antes um órgão palpitante dava sinais de presença, libertando de si para os outros essa essência. Agora, um negrume ferido faz pensar apenas que toda a polaridade dos valores pode ter sido estruturada erradamente. Levado pela fúria, pela ira, toda a percepção se tolda num emeranhado de emoções. Numa teia de difícil leitura, onde memórias se misturam com o cheiro nauseabundo da realidade.
Levado. Assim. Como se a razão de nada valesse...
JV

quinta-feira, janeiro 08, 2004

A leitura deste post prevê a leitura do post anterior, ou seja, aquele que está a seguir a este :)
(Peço desculpa pela redundância do título!)
Aquela do "optimismo", no post anterior, foi uma boca para os resultados do estudo internacional que concluiu que os Portugueses são o 5.º povo mais pessimista do mundo... Não sei se deu pra chegar lá :)
DTG
Europeias e Serviço Público
As eleições estão aí à porta... São as Europeias que, tradicionalmente, são aquelas que menos interesse sucitam junto dos votantes. O que se vem a verificar na análise da taxa de abstenção, que é mais alta neste tipo de eleições do que em qualquer outro.
A situação referida é facilmente justificada pelo facto de ser aquela decisão que o Povo considera ter repercurssões mais longe de si. Acredito que a Constituição Europeia venha a suscitar mais interesse para a temática da Europa, mas ainda assim não julgo que venha a ser capaz de movimentar substancialmente mais do que o habitual.
E, aqui, penso que os partidos políticos poderão ter um papel importante, e desempenhar uma função cívica no âmbito da formação de massas. Passo a explicar... Se, paralelamente à sede incessante de ganhar votos, os partidos assim o entenderem podem contribuir para que as pessoas entendam melhor o que é isso da Constituição Europeia, e, para algumas pessoas, o que é isso da Europa. Os partidos são um meio que facilmente chega às pessoas, e se nessa facilidade de propagação de informação seguir parte útil, que não se cinja à razão do porquê votar em quem, penso que será um verdadeiro "serviço público" (como agora está em voga dizer...). E, poderia, também, contribuir para um ínicio da melhoria da imagem da política...
Vamos esperar para ver, mas com optimismo!
DTG
Frases que ficam X
"Aprendemos, muitas vezes, junto de quem sabe menos do que nós" (A. Santos Justo)

E, esquecemo-nos tantas vezes deste simples facto...
DTG

quarta-feira, janeiro 07, 2004

O espelho
Cansado... Olhos pesados, braços dormentes repousando sobre o corpo. Vejo-o ali, curvado sobre si mesmo como se não houvesse músculos, ossos, energias que o sustentassem. Cabeça caída, nariz vermelho e olhos também. Na penumbra de uma luz escura, fria e agreste as suas olheiras manifestam o seu estado de ansiedade. Nervoso, as suas mãos cobrem as faces. E descobrem faces que ainda não foram vistas. Talvez ele já tenha revisitado o seu estado como quem volta sempre ao espelho, mas sempre se esquece de que lá esteve, do que lá viu. Talvez num esforço contínuo para se ver, teima fazer de Si um ciclo de (des)vontades (?) num incompreensível estado de alma, onde a sua aura se deixa abafar sem qualquer oposição.
Deita-se. Debaixo do frio do Inverno que passa encolhe-se. Os joelhos tocam o peito ao de leve e ele sente-se protegido. Enquanto dormir será um embrião daquilo que espera vir a ser. Vê-se subitamente nele um aligeirar de expressão. Quase um pequeno sorriso que desponta. De olhos cerrados tudo lhe parece bem. Pelo menos melhor do que vira.
Ao longe, do outro lado do mundo ainda é dia. Um dia onde há quem ria, onde há crianças que brincam, namorados que se beijam, negócios que se fazem, paisagens que são vistas e se deixam ver, palácios onde se dança a valsa, praias de ondulação suave, amigos que se abraçam, gôndolas que se passeiam, músicas que se ouvem... Onde o seu reflexo é menos turvo que ele mesmo.
JV

sábado, janeiro 03, 2004

2 de Janeiro
Dia diabólico. Entre as memórias recentes e arrefecidas de uma noite alegre, uma noite de amizade, uma noite balanços e projectos, ergue-se um suave torpor, um suave incómodo, onde paira ainda um sabor agridoce de tudo o que nas últimas horas se pensou e se viveu. Subitamente a realidade assume proporções assustadoras. O sonho, o objectivo traçado já não é, nem de perto, nem de longe, tão verosímil como tudo o que naquelas horas de boa disposição, entre risos, sorrisos, taças de champanhe e uvas passas, parecia tão concreto, tão realizável como qualquer movimento banal.
Como se um pesado e empoeirado manto se abatesse, abafando os sons e os sentidos. Ao nariz acodem lenços de papel ás dezenas; o sabor perdido nas memórias de sabor indescritível por serem ora demasiado confusas na mistura de aromas, ora demasiado extremas para que as palavras as sustentem na sua verdadeira essência (boa ou má); aos olhos e aos ouvidos surge uma falta de vontade, uma desmotivação de partir para o que vemos defronte e um cansaço de ouvir o que sempre ouvimos e o que, daqui parece sempre ouviremos; ao tacto falta algo concreto para se sentir, tudo por onde vagueio é demasiado longe para chegar com as mãos, tudo por onde vagueio é demasiado longe para ser sentido verdadeiramente.
Já se lançam ás chamas tantas dúvidas e tantas questões que em 2003 perturbaram as nossas mentes. Poderão elas renascer das cinzas como uma fénix? A qualquer momento. Neste dia, em particular, há a propensão para permitir que isso aconteça com maior facilidade. É, talvez, quando estamos mais frágeis e ainda mais perto do local onde deixamos para trás o odor a memórias queimadas. Talvez seja uma tolice deixar que isso aconteça assim, num só dia, num momento total de ausência das nossas forças emocionais, num instante onde tudo nos abandona em silêncio. Mas talvez não tenhamos a força suficiente para controlar o poder dessa “tolice”. Talvez as nossas defesas estejam programadas para nos defender dos outros e não o suficiente de nós próprios.
O dia 2 de Janeiro deve servir para perceber o perigo que somos para nós próprios, a todo o momento. Para entender que por maior que seja o nosso contentamento à meia noite do dia 1, tudo será normal, banal, comum a tudo no dia 2. E só aí começa verdadeiramente o ano. Quando temos a percepção de que estamos de volta... ao sítio de onde, na verdade, nunca saímos...
JV

quinta-feira, janeiro 01, 2004

1.º post de 2004
Hoje ouvia num Jornal da Tarde os desejos das pessoas para o novo agora que agora se inicia...
E, essas pessoas não conseguiam sair do básico... As mais hipócritas, ou mais tocadas pelo álcool, só conseguiam dizer: "Paz no mundo e que as guerras acabem..."; as não tão hipócritas, ou não tão tocadas pelo álcool, lá diziam: "Paz... e mais algum dinheiro dava jeito". Mas o que eu retive de todas aquelas intervenções foi uma menina com os seus 6/7 anos que com muita simplicidade e com uma só frase conseguiu ter mais significado do que todos os outros adultos juntos: "Que as crianças que não têm casa passem a ter uma!". Sentido, sincero e não é uma frase-feita!

Aproveito para desejar a todos um óptimo Ano, advertindo que ele só pode ser bom se lutarmos para que isso aconteça... :)

(Nestes dias, em que o Confronto completou 5 meses tivemos direito a um "presentinho". Não é nada de mais, mas acho que merece ser referido. O nosso blogue ultrapassou as 1000 visitas (estando nós conscientes da margem de erro que pode provir do contador utilizado!)

DTG